25 junho, 2005

Bucha e Estica

bor-land011cd2003
Alla Polacca or Stowaways
split cd "We have made THOUSANDS
of lonely people happy: WHY NOT YOU?

Poucas são as edições que neste bairro lusitano se preocupam com o design gráfico e as implicações que daí advêm, e, por que os olhos também compram o que é para ouvir, e, há quem como amante de música, exigente, não se contente em se deixar ficar pelo conteúdo que serve o propósito, e, deseje algo mais para deleite prazenteiro; nada melhor do que um objecto para futuras tertúlias de culto exibicionisa entre melómanos.

Escrevemos sobre o registo, "We have made THOUSANDS of lonely people happy: WHY NOT YOU?". Traduzamos: "Presunção e água benta, cada um toma a que quer" ou assim lhe prover. Dois novos conceitos, distintos, integrados numa mesma edição em split cd. Alla Polacca a àgua benta? E Stowawys a presunção? Isto é, da luz se faz a sombra e do silêncio o ruído ou a música, as faces visíveis de coisas diferenciadas, presentes, permutáveis e insubstituíveis que estão na permanência do objecto criado por necessária e independente existência relacional com qualquer outro objecto. Convivendo num suporte material em tudo semelhante, contudo, siameses com caracteres engendrados por estéticas familiares, mas com aplicações dissonantes, sem que nunca se anulem, pelo contrário, constroem dois universos paralelos com efeitos sinergéticos.

Então encontramos, surpresos, um modo de pensar a música com uma força invulgar. Desde logo, pela razão essencial de fazer-se a criação da arte em confronto disinteressado com a exposição do objecto artístico, numa abolição simbólica da materialização do acto isolado que procura protagonismo inventivo, face à popular reactividade positiva por apreciação pelo mesmo objecto artístico. Ora, se a proposta contida nestes dois antídotos para a tristeza em formato cd servem a "Felicidade" do ouvinte. E este se encontra na possibilidade de a alcançar porque possui o objecto do prazer. E não sofre de qualquer deficiência do tipo auditivo: "do que é que está à espera?!"

Mente... Movi... Em movimento... É assim que ficamos, quando a virtual rodagem do leitor de cd debita decibéis empacotados, ora em formato post-rock sinfónico ora em formato pop-rock independente.

As referências vocais para os Alla Polacca, se é que isto é necessário, a não ser só para contrariar, encontram-se muito próximas do registo de Ade Blackburn e Brian Campbell dos Clinic. No entanto, em desacelarada vertigem psicótica como espelha "Secret Satellite", mas enfermos deste estado psíquico latente, as composições encerram um desassossego inquietante, caso disso é o tema "FAKE BLUE", provocando um formigueiro heróico ao neurodepressivo capaz da felicidade absurda no tema "WRONG LIKE US" e a esperança delirante de dias melhores com o último tema "MORNING VS JUPITER".

Os Stowaways, embora pareça o contrário, são mais sóbrios, humorísticos com sarcasmo q.b., eclécticos nas referências estilísticas e eufóricos executantes com adrenalina na ponta da unha. Logo no primeiro tema "BED BUGS", o primeiro juízo estético é a referência ao que de melhor já se ouviu dos Primitive Reason, mas é apenas no início, atenção! "The Room Upstairs" é orelhudo, revivalista, psicadélico a fazer lembrar o som da época produzido pelos quatro fabulosos de Liverpool. Após "BOOGIE LIST", depois de termos marchado com um cravo ao peito num tempo de valsa compassada pelo lápis azul dos Coronéis, gradualmente, somos espectadores reféns de um carrossel alojado em fotogramas de Fellini ou Kusturica para não mais parar... De bobina em bobina rumo à felicidade!

É verdade que as expectativas não são por muito defraudadas e, se há algo que de imediato nos surge na mente, é a garantia que de charlatões, nem os Stowaways, nem os Alla Polacca, alguma coisa têm.

Acordes de Diplomacia

bor-land06cd2003
The Neon Road
ep "Am I Welcome Here"

É uma interrogativa sem pontuação, um reflexo espontâneo e condicionado além corpo pela idiossincrasia de um território desconhecido, uma necessidade extrínseca à criação sofrida de um conceito novo refém da memória e mendigo de aceitação, um motivo forjado no ideário moral e questionável na matéria musical despreocupada a priori por quem ouve!

A música é universal, faz-se em Marte e nos Anéis de Saturno, para quê a pergunta ou a não pergunta?

É suspeito! Oferece-se a investigação das origens, e, o que se descortina é um passado criativo com raízes em Manchester de nome Sleepwalker... Quem? Sleepwalker, não Johnny Walker, isso é outra coisa! E o líder do conceito tratava-se pelo mesmo nome que se trata nos actuais The Neon Road, isto é, Sandy Kilpatrick. Também não é muito esclarecedor! Dito isto, desta forma, já se percebe a pergunta ou a não pergunta, não é?!

Bracara Augusta, a segunda Roma do período medieval, território Episcopal e Milenar nos Costumes. A cidade da porta aberta, do tempo de D.Lourenço, arcebispo de Braga no século XIV, que Jaz na Sé de Braga, num túmulo que mandou construir para si, e, que está na origem da frase popular:"És mesmo de Braga!". O que é que isto tem que ver com o trabalho dos The Neon Road? Tudo. Diz-se em Braga que essa expressão se devera à existência nessa cidade, numa das artérias mais famosas, precisamente, do Arco da Porta Nova, que nos tempos idos e de hoje, nunca teve porta.

Por aquele arco sem porta passavam os bispos e arcebispos em direcção ao paço episcopal, e, Braga seria, pois, uma cidade de portas abertas à passagem de figuras gradas, ilustres, que aí viviam ou não. Ora, Sandy Kilpatrick, conscientemente ou não, ilustre ou não, escolheu a cidade de Braga para que o acolhesse. E, madura e sábia a frondosa o acolheu tão bem que até lhe deu a conhecer outros músicos para dar corpo a este primeiro ep "Am I Welcome Here".

Os Wave Simulator de Braga que são representados por "Marco Pereira e de Pedro Cunha que ocuparam o baixo e a bateria no Ep"; Benjamin Brejon (embora Francês, mantém uma ligação especial com a cidade Bracarense) automatiza a parte electrónica, e, Miguel Pires flúi no piano. Mas, nem sempre é esta a formação, e, neste trabalho a presença de Ana Figueiras (The Unplayable Sofa Guitar) na voz de apoio é sintomático. Com produção a cargo de Paulo Miranda no AMPstudio em Viana do Castelo, o som deste registo é todo ele apurado na electroacústica e captação de ambientes etéreos próximos daquilo que Sandy Kilpatrick pretende alcançar e transmitir, num acto confessional suspenso algures entre a respiração ofegante e as palavras mastigadamente perceptíveis ao longo de todo o registo.

""Were the sunlight hides"" que convida ao primeiro contacto formal, é a face imperceptível de Sandy Kilpatrick impressa na capa deste projecto, uma ambígua necessidade de alteridade sem identificação física ou crise de identidade traduzida em 4 minutos e 25 segundos de lamento pastelento, em que o único motivo de audição se revela mesmo o fantástico piano tocado por Miguel Pires.
A passagem para o segundo tema é menos agradável do que a abertura, "astral radical" é um loop constante suportado por guitarras de um acorde rítmico, uma pianola de salloon para cowboys tímidos por desabrochar e pinceladas electrónicas perceptíveis por distracção.
O terceiro e último tema, ""Am I Welcome Here"", é isso mesmo "aonde se esconde a luz do sol" que fui levado a recuar alguns anos no tempo e forçado a recordar que os James da altura de Brian Eno são luz de outros manuais.

Com a esperança de que o novo registo seja mais satisfatório do que este "Am I Welcome Here", concluo dizendo: para isto mais valia teres ficado em casa!

20 abril, 2005

"isto é só o início!"

Old Jerusalem - "april"
bl 004cd «Bor-Land 2002»

Old Jerusalem, nome de um conceito forjado na íntima teia de um legado que é de todos. Faz do jogo de duas palavras, uma elipse verbal infinita na imaginação e suportada pela memória.
Portanto, simplesmente, deste modo, entende o voyeur o simbólico deste projecto, a expressão profunda de sentimentos presentes, vivos, oxigenados pelo acto de respirar primordial de Francisco Silva, bebendo na essência da poesia livre arquitectada em dialéctica constante com a música.
Ora, Francisco Silva frequentou o Conservatório do Porto para estudar guitarra clássica, é um facto que não concluiu os estudos, mas é fácil perceber de onde vem esta desenvoltura comunicacional e confessional na arte de fazer música. Se, por um lado, como o próprio admitiu e partilhou com o "Direito de Admissão", "...se não tivesse aprendido música seria muito difícil fazer o que faço...", isto é, a desconstrução de um ser (a música) complexo, do entendimento claro de uma linguagem hermética. E, por outro lado, a desmistificação e apropriação dos demónios contidos nesse ser faminto por quem lhe pegue sem segredos, com a força de quem sabe que tem algo maior dentro de si para dizer e que a música é um elemento integrante, indissociável. E, é das entranhas cintilantes, num Abril Primavera pastoril e bucólico, que esporos fecundos, recheados de canções, engendram um dos mais belíssimos álbuns de que a música portuguesa já viu nascer.

Ficou registado como "april" ou apêndice do quinto tema "is this april?" que alimentou a identidade visível do primeiro longa-duração para Old Jerusalém, decorria o ano de 2002, e, a quarta edição da editora independente “Bor-Land”.
Na concepção esteve envolvido Paulo Miranda, produtor reconhecido pelo seu trabalho à frente dos AMP Estúdios, em Viana do Castelo, e, mentor de outro lindíssimo conceito que são os "The Unplayable Sofa Guitar", dos quais Francisco Silva também faz parte. Em “april”, Paulo Miranda desenha uma imagem acústica palaciana, magistral, em que a filigrana que sai do dedilhar de Francisco Silva é polida e envolta em cenários de seda renascentista, para beber numa sala de paredes caiadas em veludo e licor de cereja num copo de cristal.
A relação de Francisco Silva com a guitarra acústica, predominante na escolha executada, guia-nos até aos universos do alternetive country, da folk, e, a personagens incontornáveis como o são Will Oldham, Nick Drake ou numa vertente mais pop, Simon & Garfunkel. Mas, outros instrumentos nos ligam e remetem para o som vindo do country, neo-folk norte-americano, nomeadamente, o banjo, mandolim, violino e violoncelo em simbiose orgânica com as cordas dos restantes intervenientes neste trabalho.

Sem esquecer as canções, antes não querendo desen-carnar qualquer rebento do seio conceptual deste filho pródigo, desenlaço a conclusão acenando: Há vida e veio para ficar, isto é só o início!


04 abril, 2005

Tendrills, a cabeça ou nada!

Tendrills “Gray Area Zone”
Metro 018.04 «metropolitana 2004»

Aquiles banhou-se num líquido fornecido pelos Deuses, vestiu uma armadura especialmente criada no Olimpo, capaz de resistir a qualquer ataque. “Gray Area Zone” tem na capa um Guerreiro Grego que exibe uma cabeça ao alto como símbolo de um qualquer triunfo. Com ou sem Aquiles e o seu”calcanhar”, os Tendrills são Guerreiros sónicos, armados de guitarras com atitude rock, aptos a conquistar o ouvido mais bruto e o mais fino em simultâneo.
Este primeiro registo dos Tendrills pode ser adjectivado com intensidade, irreverência, emoção e paixão, mas também, com conceitos menos positivos como pouco originais, banhados de influências declaradas, fora-de-moda-por-atraso-criativo, vítimas de um fenómeno inconsequente.
Mas, sejamos realistas! Há quanto tempo não comem um Cozido à Portuguesa? É agradável comer uns bons hambúrgueres, com batatinhas fritas estaladiças e uma coca-cola, não é? Oh! Então se for feito por uma qualquer hamburgueria de bairro, bem perto da nossa casa, melhor ainda!
A verdade é cruel, e, se há algo do qual não podemos abdicar é do conhecimento geral que nos faz ser o que somos por cultura, aculturação ou enculturação, contudo, podemos escolher qual o caminho; é possível para melhor; exige-se outra via; agora que a batalha está ganha!

O milefólio ou erva-dos-soldados (do tempo das guerras entre Gregos e Troianos, que foi popularizado por Aquiles, que o usou para estancar as feridas dos seus soldados, por que era uma planta com propriedades curativas) é a metáfora para o trabalho superior que o produtor Mário Pereira aka “ilustre desconhecido”, desenvolveu neste registo poderoso, envolvente e invulgar na Lusitânia Produção. Artificial? Plástico? Cosmético? Mais o quê? Soa e fica bem, isso é que vale o traço e o Gira-DisCos a rodar.
Citando Nuno Passos, jornalista do Y-Público, “…embora sobressaía o inteligente uso do “groove”…”, arranjos supérfluos de electrónica apetrechada eram e são evitáveis do modo que se encontram encaixados neste registo, levando a uma aproximação de algo sem orgulho de referência.

“Gray Area Zone” é um espaço de confluência de temáticas pigmentadas pelo branco, e, por outro lado, pelo preto. A dinâmica da poesia das letras que materializam as canções, cria uma fluidez musical em constante sintonia, tal como, existem forças oponentes que nunca se chegam a sobrepor ou anular, mais do que coexistir, convivem e respeitam-se mutuamente, procurando alcançar algo maior.
Isto é, por um lado, uma nova filosofia ou modo de ver o mundo, entrega incondicional à musa música, ao amor, à paixão, à vontade de poder para melhor decidir a nossa sociedade pelo melhor. Por outro lado, a submissão, o materialismo, a ausência de referências, o “vírus” e a anomalia psíquica, os desejos de uma geração que sofre, a proposta final da revolução ou perder a conecção.

Música e Poesia no Rock Português ou feito por Portugueses? Fica a questão?